Júlia 0.5

Após terminar o curso de direito com uma média superior ao que era comum, Júlia não teve dificuldade em conseguir um estágio num dos melhores escritórios de advogados de Lisboa. Como estagiária na Alvim e Bastos Associates, Júlia dedicou-se ao direito internacional, por ser uma área que considerava muito interessante e por lhe dar boas oportunidades para viajar.
Os seus colegas eram mais velhos e no escritório respirava-se um ar carregado, de competitividade permanente. Havia mais homens que mulheres, mas ambos partilhavam o gosto pelo poder e pelos jogos de interesses.
Júlia tentou manter-se afastada deste mundo tanto quanto pôde, mas a verdade é que, quando se entra num jogo, há que jogar segundo as regras. E Júlia não gostava de perder.

Passado um ano já se tinha transformado numa fria e dura rival dos seus ferozes colegas de trabalho. Como advogada tinha excelentes críticas dos seus clientes e com eles tentava ser, sempre, o mais cordial possível. Era viciada em trabalho e passava o seu tempo a manter-se actualizada sobre novas normas que iam aparecendo com uma frequência impressionante.
Aos poucos foi deixando de ter vida própria. Primeiro, o namorado fartou-se da sua constante indisponibilidade, e assim terminou um namoro de seis anos. Depois não havia tempo para frequentar o ginásio e deixou de praticar step. E, finalmente, as amigas de longa data deixaram de poder contar com ela nos jantares mensais que habitualmente faziam. Ao fim de três anos a trabalhar na Alvim e Bastos percebeu que estava completamente só. Sem namorado, sem amigos e com a família longe, em Tomar… mas continuou na sua vida.

Tinha conseguido, recentemente, uma promoção. E isso implicava viagens a França, Itália e Bélgica, com uma frequência que beneficiava da sua vida sem amarras.
Os amantes multiplicavam-se com as viagens. Eram relações breves, fugazes. Davam-lhe o suficiente para satisfazer os seus desejos. Ela estava convencida que não precisava de mais. E era sempre fácil encontrar um homem disposto a dar-lhe aquilo de que necessitava.

Os anos foram passando cada vez mais frenéticos e, no regresso de mais uma viagem, em que chegou a Lisboa num estado de exaustão assustador, Júlia decidiu que não podia continuar com este ritmo. Tinha de abrandar. Tinha de olhar para si e perceber se era realmente este o caminho que queria seguir.

Pediu férias. Um mês inteiro só para si. Todos no escritório ficaram espantados. Júlia nunca se ausentara mais do que uma semana seguida. E, em alguns anos, tinha mesmo deixado dias de férias por gozar.
Planeou uma viagem que lhe permitisse recuperar alguma da paz interior que possuía antes de ser engolida pela advogada fria, ávida e calculista em que se tornara. Bali era um destino possível. Mas não queria aquelas férias de pacote, enlatadas e sem sal. Passou uma semana a planear, ao pormenor, o que podia fazer no oriente longínquo. Usando a internet como a ferramenta mágica que lhe permitia chegar ao outro lado do mundo, planeou um percurso fora dos circuitos turísticos, sem esquecer uma estadia obrigatória na praia. O mar sempre lhe trouxera paz e tranquilidade.