Lluc 0.5

Nos seus anos de juventude Lluc era o eterno rebelde. Vivia com os seus pais e irmã no bairro de Poble Sec, em Barcelona. Na escola estudava o suficiente para não reprovar às disciplinas. E questionava-se frequentemente quanto aos limites e amarras que aquela vivência padronizada lhe impunham. Tinha sede de liberdade. Queria beber os ensinamentos que a vida lhe podia proporcionar. Que os lugares, as gentes, enfim, o mundo, lhe podiam trazer.
Mas sabia que tinha de esperar. Que não podia evadir-se assim, sem mais nem menos. Adorava a sua família e eles eram fundamentais na sua existência.

Para escapar à rotina do dia a dia, aos eventos que não lhe faziam sentido, tinha decidido abraçar o trabalho de voluntariado numa instituição que apoiava crianças em risco. Essa experiência fazia-o valorizar ainda mais a família acolhedora e liberal em que teve a sorte de nascer. O voluntariado era um trabalho duro, que o fazia encarar realidades que preferia que não existissem. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se grato por poder dar àquelas crianças algo que as fizesse sonhar. Por lhes poder dar alguma esperança de que existissem pessoas boas, num mundo em que viviam pesadelos… em vez de sonhos. Partilhava com elas a sua grande paixão pelo mar.

O mar foi, desde cedo, um chamamento a que não pode virar costas. Quis o destino que vivesse numa cidade junto ao Mediterrâneo e que os pais tivessem uma casa de férias na Costa Brava. Desde que se lembrava, sempre aí tinha passado férias e, em alguns fins de semana, ao longo do ano, esse era o seu destino predilecto.
A sua personalidade inquieta não lhe permitia ficar em casa muito tempo. Saía, falava com os comerciantes locais que já o conheciam. Ia até à praia. Falava com os praticantes de desportos aquáticos. E foi assim, quase sem dar por isso, que se apaixonou pelo kitesurf. E que, entre os amigos que fizera, lhe ensinaram a dominar a arte de viajar, com a ajuda do vento, em cima do mar que amava.

Era a sua dose de liberdade. Uma dose da qual não prescindia e que lhe era vital para sobreviver.